98 Telinha e seus gatinhos

no dia que eu me zangar
mato voce de carinho

Ze´ Limeira

1.4.09

hoje, lendo estas declarações do arcebispo de são paulo, cardeal Dom Odilo Schrer, à folha de são paulo, eu tive um insigh doloroso. eu sou católica porque fui condicionada a ser católica.

DOM ODILO SCHERER

"É bonita, é bonita, é bonita"

O arcebispo de São Paulo, cardeal dom Odilo Scherer, foi uma das estrelas da homenagem aos 39 anos de atividade do rabino Henry Sobel, realizada anteontem na Sala São Paulo.
A coluna falou com ele na saída do evento, encerrado com Zizi Possi cantando "O Que É, O Que É", de Gonzaguinha, aquela do refrão "É bonita, é bonita e é bonita".


FOLHA - O que o senhor achou da condenação do arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, ao aborto da menina estuprada pelo padrasto em PE?
DOM ODILO SCHERER - Vamos comentar só coisas bonitas. A vida é bonita, é bonita, é bonita.

FOLHA - As notícias sobre abuso contra crianças estão se tornando quase diárias.
DOM ODILO - A igreja está fazendo a Campanha da Fraternidade deste ano contra toda forma de violência. Denunciando a violência contra a criança, contra a mulher. Toda violência é aviltante.

FOLHA - O aumento desses abusos não poderia fazer a igreja repensar sua posição sobre o aborto nesses casos?
DOM ODILO - É bonita, é bonita, é bonita.

FOLHA - E a excomunhão dos envolvidos no aborto?
DOM ODILO - A vida é bonita, a vida é bonita.


é assim que se reage? é essa a postura de um cardeal quando ouve perguntas que não são agradáveis? é assim que age um líder, ignorando, fazendo pouco de perguntas graves? se não era o local adequado, caro arcebispo, usasse da frase "nada a declarar" e se poupasse desse vexame.

uma amiga vai ter um bebê e me chamou para madrinha. estou emocionada e feliz com o meu papel na vida da criança. mas para ser madrinha eu preciso jurar que farei coisas com coisas com as quais eu não concordo. e, olhando seriamente as minhas convicções, a pessoa que eu sou, compreendo que nunca concordei.

eu estou confusa e revoltada. porque essa religião não me serve mais. eu não acredito na infalibilidade papal. eu não aceito a falta de solidariedade dos líderes. eu tenho nojo da hipocrisia reinante. são católicos, são papas, bispos, cardeais, padres, o que for, têm títulos e podem recitar o códico canônico em latim, mas não são cristãos. sem amor, como disse são paulo, eles nada são.

e, ao mesmo tempo, eu me enterneço com nossa senhora e são francisco de assis. eu respeito dom helder câmara e, com as devidas ressalvas ao apoio à linha conservadora do vaticano, quero bem ao papa joão paulo segundo. eu reconheço o papel importantíssimo da pastoral da criança.
minhas referências são essas: pedir a bênção aos meus pais, rezar o santo-anjo. pedir ajuda aos santos. fazer o sinal da cruz ao passar por uma igreja.
mas o papa ratzinger já disse, o catolicismo não é um buffet que a pessoa escolhe o que mais lhe agrada.

e não me agrada fazer parte de uma instituição milenar que não conhece o princípio básico de que "muito ajuda quem não atrapalha". não consigo conter a minha indignação ao ver um papa, um papa ciente e orgulhoso do poder que tem, negar fatos científicos e diz que o uso do preservativo ajuda a disseminar a aids. há alguns séculos, outro papa, tão orgulhoso e tão ciente do poder que tinha quanto seu colega, dizia que a terra era o centro do universo e quase manda galileu pro beleléu. e se passaram séculos para que outro papa, esse mais humilde, admitisse alguns erros da santa madre igreja.

acredito que o geocentrismo ficou encruado na mentalidade da instituição. o universo precisa girar em torno do vaticano. e se não girar, bem, o universo é feito de pecado e vai para o inferno.

acho que a sensação que eu sinto, essa revolta, esse olhar já distante e paradoxalmente saudoso, é o que os fumantes devem sentir quando param de fumar. largam uma coisa que é boa, mas que é ruim, mas que é boa.

depois de tanto ouvir o clichê de que a religião é o ópio do povo, descubro que o catolicismo é minha nicotina. e olha que eu não fumo.

como já dizem os versos de cântico negro, de josé régio,

"Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"

15 Comments:

OpenID batatatransgenica said...

telinha do céu, e nem combinamos nadinha! lol! mas é mesmo uma tristeza essa sensação de abandono que arrente sente, ne? a decepção, o tapa na cara. por sorte ainda tem religioso que pratica o verdadeiro amor ao próximo [vi sua tuitada], o jeito é ter esperança de que um dia sejam eles a comandar a instituição!

4:58 PM

 
Blogger stella said...

é, titia batata, a esperança é um bicho teimoso que é uma beleza :)

5:34 PM

 
Anonymous esther said...

ai, telinha, é trágico. mas toda corporação financeira funciona assim. bjs

10:27 PM

 
Blogger ila fox said...

Telinha, fazer o bem e acreditar em algo melhor é uma coisa maravilhosa. O que não gosto é a religião, que são coisas dos homens. Pra mim não passa de uma política disfarçada.

Eu vou casar, e gostaria de poder entrar numa igreja, de noiva, só para a família assimilar minha nova "condição". Mas quando me lembro das burocracias religiosas todas eu desisto. Não gosto, parece que não combina comigo.

O jeito vai ser me enfiar num vestido branco e básico e chamar todos num restaurante mesmo.

10:14 AM

 
Blogger stella said...

você vai ser a noiva mais linda do mundo, ila, independente do cenário!

5:39 PM

 
Blogger stella said...

esther, o catolicismo não é democracia, é absolutismo. o padre falou sobre uma revolução interna, mas ou a gente corta a cabeça do rei ou a nossa é cortada por ele. sei não.

7:46 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Assino em baixo junto com vc, Telinha.
Beijos, Hetie

10:02 PM

 
Blogger Edson K said...

Aprendeu com o Lula, Stellinha!
Em vez de "eu não sabia de nada" ele usa o "é bonida..."

A igreja não sabe se comportar como vidraça, só como pedra... igualzinho a você sabe quem...
Bjks

11:04 PM

 
Blogger stella said...

é um processo doloroso, hetie. mas ninguém disse que pensar era fácil.

11:06 AM

 
Anonymous LuMa said...

Ola Telinha, vim la da Batatinha Transgenica, è um prazer conhecer o seu ponto de vista. Vc colocou este conflito interno de maneira tao honesta que nao posso deixar de assinalar meu grande respeito aqui. Eu continuo a afirmar que este papa acabou por percorrer o mesmo caminho da tentativa de controle geopolitico de Bush: chegar la onde falta fincar bandeiras. Beijos!

3:15 PM

 
Anonymous Mani said...

Eu ando questionando muito, Telinha, tudo isso que se poe como igreja.

9:38 PM

 
Blogger stella said...

é, mani, cada dia mais é preciso questionar. não dá para ficar aceitando e justificando...

9:46 AM

 
Anonymous Ana Paula said...

Tela, muito pungente e honesto isso aí que vc falou. Eu percorri esse trajeto 20 atrás, e restou que eu não me considero mais católica. Tenho uma postura de respeito e independência com relação à instituição. Continuo acreditando em Deus, e escolhi, sim, bem como o ratzinger disse pra não fazer, os valores e devoções que me são importantes. O resto, eu joguei fora. E não me fez falta.
Muita gente que para de fumar depois pega nojo do cigarro e não consegue nem sentir o cheiro. Vai ver foi o meu caso.
bjs, amada

11:12 AM

 
Blogger Cristine Martin said...

Oi Stella!

Li o artigo da Naomi e o seu, e gostei muito dos dois; parabéns!

Também fui criada no catolicismo, mas já me desiludi há muito tempo; conheci outras religiões e vi que todas têm uma essência boa (e que é a mesma!). Então vi que meus valores básicos, minha espiritualidade, independem de rituais de religiões. Todas têm seu lado bom, e nenhuma me completa. Acho que estou bem assim...

Grande abraço!

(e obrigada pela visitinha ao Terracota!);-)

Cristine

4:44 PM

 
Blogger stella said...

cristine,

hoje, sexta feira santa, almocei frango à milanesa e não sinto que pequei em nada. os laços vão se desfazendo, e o que ficar é o essencial.

6:13 PM

 

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