98 Telinha e seus gatinhos

no dia que eu me zangar
mato voce de carinho

Ze´ Limeira

18.9.03

Faz muito tempo que escrevi este texto - dezembro de 99! mas ele é um dos meus preferidos.


Minha primeira vez no Maracanã


Náutico e Fluminense no Maracanã. Já no caminho vai dando um negócio no estômago.
Ao meu lado, Fred já se transforma no Torcedor. Muito calado,segura minha mão e eu só posso imaginar o que vem pela frente.
A chegada ao estádio lembra um show de rock: gente, muita gente, mais gente e camelôs vendendo de tudo, só que no show todo mundo torce para um time só. Aqui, eu sou uma alvi-rubra no meio de torcedores adversários.
Os ingressos foram caros, o que até agora eu não entendo. Não vou ver o estádio em sua glória, afinal, é apenas um jogo da série C, com o estádio parcialmente interditado, sem arquibancada e com uma parte das cadeiras liberada. Para mim, 30 reais é preço de show no Centro de Convenções.
Mesmo com tanta restrição, o Maracanã impressiona. Tem aquela mitologia, e mesmo em reforma ele é bonito, grandioso (até durante o jogo dava para ouvirbarulho de operário trabalhando). Vamos chegando nas cadeiras: fila grande, torcedores baruhentos, crianças com o uniforme do Flu, elevador. Quando nos sentamos, o jogo já havia começado.Meu walkman só pega estática e um programa religioso. Eu e Fred mais adivinhamos do que vemos o jogo: percebe-se qual time ataca e qual defende, mas os detalhes só deus sabe.A torcida reagindo ao jogo é impressionante. De repente todo mundo grita ao mesmo tempo a mesma coisa, e não dá para ver onde começou. E olha que não é um jogo de estádio lotado, quando chega a tremer a arquibancada com a torcida se manifestando. Cantam "A bênção, João de Deus", o hino do Papa. Eu não entendo nada, penso que algum jogador chamado João fez uma boa jogada. Em casa, Fred explica que é tradição da torcida tricolor cantar esse hino e por isso é chamada de torcida de Deus.
De repente, gol do Fluminense e todo mundo fica desvairado. Eu, alvi-rubra e sofredora por definição, só mexo os olhos. Falo baixinho, vai empatar. Fred grita, agita as mãos, bate palmas. Mulheres beijam os namorados, crianças agitam bandeiras, homens xingam mais um pouco.Acaba o primeiro tempo. O placar não dá o tempo de jogo, e por um instante, quando tudo pára, a gente não entende o pq.
Intervalo.
Os vendedores de refrigerante, água, mate, pipoca e cachorro quente, q já andavam prá cima e prá baixo durante o jogo, fazem a festa. Eu observo: todo mundo comenta o jogo e fala mal do juiz. Atrás de mim um rapaz comenta: tá um a zero, tá bom, pode acabar agora!
Segundo tempo: o Fluminense entra em campo, todo mundo canta o hino do clube. Lá vem o Náutico, confusão na área, fui ver, era gol. Silêncio e uma rede balançando. Eu mordo a boca, que não sou doida de gritar no meio da torcida inimiga. Não vejo uma bandeira do Náutico sequer. 1 a 1. O clima ao redor é outro. Os jogadores, pequenininhos, o campo, imenso e o povo irritado, querendo raça. Para eles, o juiz é paulista e rouba todas as faltas para o adversário. Pênalti para o Fluminense, alegria no Maracanã.
Eu paro de observar e vou torcer, quieta, para o jogador errar o gol. A torcida grita incentivando, é uma coisa. Futebol no estádio é uma emoção danada, infinitamente melhor do que ver em casa. No estádio a gente faz parte. Na frente da tv só dá para assistir. Gooooooooooool do Fluminense. lá em baixo, a geral começa a dançar de alegria. Eu insisto, bem baixinho: vai empatar, vai empatar.O meu time perde um gol e mais outro. Tento disfarçar, mas o sorriso aparece, vai, mostra para eles, empata esse jogo, vira esse placar, fico rezando. Aperto a mão de Fred, ele ri e me abraça. O Fluminense perde chances de gol. Um gol tão fácil que a torcida se irrita e começa de novo a xingação. O juiz avisa, 2 minutos de acréscimo. Eu penso que em Recife o Náutico devolve o placar. Por todo lado gente agoniada gritando acaba, acaba. Futebol no estádio é assim: não tire o olho do campo que não tem replay. Você se distrai e já era. Pois é, já era: o juiz apita, acabou o jogo. Todo mundo vibra com a vitória.
Dessa vez a gente desce pela escada que a fila do elevador tá muito grande. Estamos cercados por comentaristas e técnicos, que dão gritando a opinião sobre o jogo. Na saída, chove muito. Fred tá feliz da vida. Eu adorei ver jogo no estádio, e digo que na próxima vez a gente vai torcer pelo mesmo time, para eu poder gritar também.