98 Telinha e seus gatinhos

no dia que eu me zangar
mato voce de carinho

Ze´ Limeira

25.4.03

não pude resistir. aninha, gil, vocês lembram? hahaha!

NÃO SE REPRIMA
Stella Florence

O maior programa de índio em que eu já me meti foi o show do Menudo – sim, aquele do “não se reprima” –, num estádio de futebol, em São Paulo.
Não lembro qual a minha idade (isso não é uma manobra para escondê-la: nasci dia 14/04/67), mas tenho certeza de que já era adulta. Pelo menos fisicamente, eu era.
A Valderez, filha da nossa empregada, era louca pelo Menudo, tinha até montado um grupo para imitar o quinteto no concurso do programa Raul Gil. Chegou a bordar fantasias com todos os requintes da cafonalha da época, mas, infelizmente, o grupo não passou na pré-seleção do programa.
Eu, apesar de adulta, confesso que possuía (possuía, não: era possuída por) uma certa atração pelos meninos do Menudo. Até sabia algumas canções tipo “quero ser o amigo que está sempre em seu caminho”.
Lembro de um por um, até hoje: Ray, Robby, Charlie, Roy e Rick (não o Rick Martin, que só entraria para o grupo no ano seguinte). Charlie era o gostosão-bem-desenvolvido; Robby, o moreno que tinha a melhor voz (ou a única); Roy era um cara de fuinha-vesgo que dava para o gasto; Ray, o meu preferido, tinha uns lábios estilo botox e olhos verdes; e o Rick era um cara medonho com aparelhos nos dentes.
Quando soube que o Menudo faria um show em São Paulo dei de ombros: meu interesse não ia tão longe, no entanto, Valderez quase entrou em colapso de tanta emoção. Dois minutos depois, veio ao meu encontro, desesperada:
- Stella! Minha mãe não me deixou ir no show do Menudo sozinha! Eu vou me matar!
- Pelo amor de Deus!
- Vou me matar! Vou apertar o Baygon dentro da boca até morrer!
- Valderez!
- Eu vou sim! Adeus, mundo!
- Me dá essa lata aqui, menina!
- Adeus, Robby!
- Socorro! Alguém que acuda!
- Adeus!
- Eu te levo no show!
- Jura?
Promessa é dívida. Valderez fez questão de que chegássemos ao Morumbi antes do almoço (o show estava marcado para as seis da tarde) e lá fomos nós.
Uma vez dentro da pista, me senti como Gulliver: a média de idade ali era onze anos. Para meu espanto, notei que quase todas as meninas estavam desacompanhadas. Conversando com uma aqui, outra acolá, descobri que os pais prometeram pegá-las na saída, como se elas tivessem ido a um jogo de vôlei no colégio. Pais que provavelmente nunca foram a um show no Morumbi ou Maracanã ou Mineirão ou Beira-Rio.
Três da tarde a coisa começou a ficar apertada. Três e meia, mais apertada ainda. Quatro horas, as meninas que estavam perto do palco começaram a desmaiar. Às quatro e meia, bang: chuva. Não chuvinha besta que nem molha o chão: tempestade mesmo, aguaceiro bíblico. Os tapumes que protegiam o gramado não deixavam a água escoar adequadamente. Uma lama vinda das laterais do campo misturou-se a um sem-número de copos plásticos e embalagens de salgadinho. Aquela gosma invadiu a pista.
Seis da tarde: nada de show, só chuva.
Sete da noite, vencidas pelo cansaço, as meninas ao meu redor começaram a desmaiar em profusão. Nunca, em toda a minha vida, eu vi tanta gente passando mal junta. Sem ninguém para acudir!
Então, deixei Valderez numa das laterais da pista e avisei para que ela não saísse de lá sob hipótese alguma.
- Nem se o show começar?
- Nem se o show começar.
- Mas daqui não dá para ver quase nada!
- Eu venho te pegar na hora do show: fica aí!
Dessa forma, fiz a única coisa possível: passei a carregar as garotas desmaiadas para fora da pista (pelo menos elas não seriam pisoteadas).
Duas horas depois, eu nem sentia mais as pernas. Com lama até os joelhos, levava no colo (mais) uma menina que perdera os sentidos, quando um sei-lá-quem informou ao microfone que o show, atrasado por causa do temporal, iria começar em breves instantes. Ouviu-se aquela onda de gritinhos histéricos e, logo em seguida, pumba, mais desmaios.
Reencontrei Valderez, já aflitíssima, e fui me enfiando no meio da multidão.
Quando, finalmente, o Menudo entrou no palco, Val se apoiou, com o rosto verde, no meu ombro. Pois é. Desmaiou também. E lá fui eu carregando mais uma. Ela pegou só o finzinho do show – que durou meia hora! Gente, meia hora de playbacks! Um ultraje!
Se você, quando criança, esteve na pista do Morumbi, num show do Menudo e, por acaso, desmaiou, pode ter certeza, fui eu quem te carregou. Seja uma alma agradecida e compre um livro meu em retribuição, pode ser o mais recente. Para o meu bolso irão R$ 2,25 (é, só isso mesmo: dois reais e vinte e cinco centavos), mas já dá para eu comprar o disco do Menudo em algum sebo (e depois quebrá-lo em mil pedacinhos).