98 Telinha e seus gatinhos

no dia que eu me zangar
mato voce de carinho

Ze´ Limeira

15.11.01

15 de novembro

Hoje é um dia diferente. Hoje é aniversário da morte do meu pai.
É um dia estranho, pois ele morreu depois de cinco anos gravemente enfermo, então já era esperado e, para ser sincera, desejado o seu descanso. E o nosso.
Incrível como lembro de tudo daquele dia. E do enterro, no dia seguinte. E não consigo precisar o ano! Não sei dizer se foi em 91, 93 ou 95; isso realmente não tem importância. Meu pai, com seu riso aberto, sua barriga boa de deitar a cabeça e receber cafuné, seu amor pelo cigarro e pelo café pequeno, bem doce, seus escritos, suas contradições, o fato de que ele foi, seguramente, um dos piores motoristas deste mundo, está presente em mim - a filha mais parecida com ele. Dele vem a afinidade com as letras, dele vem a porta batendo quando estou com raiva, a água com açúcar para acalmar, o imenso prazer de dar presentes. Dele vem a minha cor, meus olhos. Dele também vem minha aversão ao cigarro.
Meu pai talvez não saiba o quanto me ensinou. E ele se foi muito, muito cedo: quando adoeceu eu era apenas adolescente, e ele passou cinco anos vegetando numa cama, só o corpo, o espírito cada dia mais distante. Quando morreu, só deixou para trás uma casquinha do que ele era. Passamos muitas dificuldades, naqueles tempos. De problemas financeiros ao fato de não saber lidar com o fato dele não resolver mais os problemas. Dele ser agora o indefeso. Um nenenzinho de 60 anos.
Mas passou e me orgulho da força da minha mãe e da indiscutível dignidade que cercou meu pai em todos os momentos. Carinho e respeito que não faltaram um minuto sequer naqueles cinco anos. Ele, mesmo que distante, participou de minhas alegrias e tristezas, e nunca deixou de ser meu pai.
Passou a fase de me recriminar pelas pequenas arengas que tivemos e pelo que não fiz por ele. A gente era só pai e filha, e isso faz parte do pacote. Se não fosse desse jeito, não seríamos verdadeiros. Seria um amor encenado: a vida tem mesmo brigas, mal-entendidos e reconciliações.
Hoje ele descansa em Recife, junto com minha vó Stella, mãe dele. E ele não morreu, porque o amor que sinto por ele está cada dia mais vivo.